ESCALADA DA VIOLÊNCIA

Polícias sofrem com a falta de motivação, diz especialista em segurança

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Foto: Emanuel Soares / Jornal Conexão Comunidade

Escalada da ViolênciaA polícia prende e a Justiça solta. Frase comum entre os membros das polícias no Norte da Ilha. Nos arquivos da Polícia Militar, por exemplo, dezenas de bandidos são presos e depois soltos pelas falhas das leis. Existem vários casos, entre eles um que já chegou a marca de 50 prisões na área do 21º Batalhão da Polícia Militar. Hoje, muitos passam por um serviço de apoio psicológico para poder enfrentar a missão de continuar no policiamento. Na visão do Coronel Eugênio Moretzsohn, mestre em Operações Militares e especialista em segurança, o prende e solta somado aos problemas estruturais da segurança desmotivam as tropas.

“Sem efetivos suficientes para manter a presença ostensiva 24 horas por dia e 365 dias por ano, o que inviabilizaria a atividade comercial das “bocas” pelo simples afastamento dos consumidores, a PM realiza operações episódicas para capturar criminosos, retirar drogas e armas de circulação e manter a paz por alguns períodos; enquanto isso, a Civil realiza as investigações, essenciais para manter presos os meliantes capturados pela PM. Ambas as corporações sofrem com suas limitações em pessoal, tecnologia, recursos financeiros e até motivação, pois, é bastante comum a polícia prender e a Justiça mandar soltar logo em seguida”, comentou.

Policiais Militares que participam desse prende e solta podem procurar dentro da corporação um apoio psicológico que é oferecido pela própria PM de Santa Catarina. Muitos deles continuam atuando nas comunidades ao mesmo tempo em que o tratamento é realizado.

As 50 mortes que já foram registradas no Norte da Ilha em 2017 tem relação direta com o tráfico de drogas que comercializa os entorpecentes em pequenas quantidades ao consumidor comum, é o chamado ‘comércio formiguinha’. É o usuário que mantém financiadas as quadrilhas e facções. O mercado é considerado atraente na visão do coronel Moretzsohn. Para ele, esse é o principal fator que explica as 50 mortes registradas até agora.

“Razão determinante das mortes violentas na Região Norte da Ilha é a alta concentração de usuários de drogas ilícitas que resulta no tráfico para abastecê-la. É um mercado consumidor atraente para as organizações criminosas que se capitalizam com o “comércio formiguinha” (varejo do tráfico). Essas organizações competem por mercado e território, e não exitam em matar seus desafetos e competidores”, disse.

Foto: Luzia Vidal / Jornal Conexão Comunidade
Foto: Luzia Vidal / Jornal Conexão Comunidade

Mas as chamadas comunidades conflagradas, que estão todos os dias na pauta dos meios de comunicação e nas operações da segurança pública, precisam ser atendidas com maior atenção pelo poder público. O especialista afirma que essas comunidades não recebem atenção por falta de ‘coeficiente eleitoral’.

“É necessária a presença de outros atores estatais nos locais já mapeados pela inteligência: saneamento básico, lazer, emprego, coleta de lixo, creches, escolas de tempo integral, oficinas de trabalho etc. Há de se fazer circular dinheiro lícito para substituir a atividade econômica. Tal não acontece por não ter ‘coeficiente eleitoral’ para isso, ou seja, o retorno político não justifica o investimento. Vejamos a questão do tratamento dos dependentes de crack: eles necessitam de atenção de primeiro mundo, altamente especializada e, por esta razão, muito cara. Quem se interessa em investir nisso? O Estado? O Estado prefere construir pontes, asfaltar rodovias e inaugurar obras do que gastar na recuperação de doentes e na ressocialização de apenados. “Craqueiros” e presos não geram retorno eleitoral, e esta é a questão central. E assim vamos empurrando com a barriga e enxugando gelo”, confirmou.